Fichas de produto com IA: o que funciona e o que não funciona
Tens 150 produtos e metade das fichas tem só o nome e uma fotografia, ou o texto copiado do fornecedor. Escrever tudo à mão leva semanas, e a tentação é pedir à IA as descrições de produto todas de uma vez. Pode ajudar, mas há maneiras de a usar que dão mais trabalho do que poupam.
Para que serve a IA numa ficha de produto
Uma ficha de produto (a página onde o cliente vê o que estás a vender) tem de responder às dúvidas de quem não pode tocar no artigo: tamanho, material, para quem é, como se usa. A IA não sabe nada disto sobre o teu artigo. Sabe escrever frases e organizar informação. É uma ajuda para escrever, não uma fonte de factos.
O que funciona: rascunho, estrutura e variações
- Primeiro rascunho a partir de dados reais. Dás uma lista (medidas, materiais, utilização) e a IA transforma-a em texto legível. Tu revês.
- Estrutura igual em todo o catálogo. Podes definir um modelo (uma frase de abertura, três vantagens, um bloco de medidas, cuidados) e pedir à IA que o preencha para cada produto.
O que não funciona: dados inventados e textos todos iguais
- Dados inventados. A IA preenche lacunas com o que parece provável: um material, uma medida, uma certificação, um prazo de entrega. Se o teu artigo é de algodão e não o disseste, pode escrever "100% algodão" ou "linho" com o mesmo à-vontade. Só tu sabes qual está certa.
- Textos todos iguais. Se pedires 100 descrições com o mesmo comando e sem dados diferentes, saem 100 textos com a mesma estrutura e as mesmas expressões. Os clientes notam, e a tua loja fica parecida com todas as outras.
- Copiar o texto do fornecedor (com ou sem IA pelo meio). Se o mesmo texto está em dez lojas, a tua não se distingue. Confirma também se podes usá-lo.
- Frases vagas. "Qualidade premium" não diz nada. Troca-a por um facto: "cabe um portátil de 15 polegadas".
Se não tens tempo para rever as tuas fichas, ou não sabes por onde começar, pede uma análise à tua loja. É feita por pessoas, não por IA.
O que dar à IA para o texto sair útil
Antes de pedires o texto, junta estes dados do produto. Quanto mais concretos, menos a IA inventa:
- O nome e o que é, em palavras simples.
- Medidas, peso e materiais exatos.
- Para quem é (e para quem não é).
- Como se usa e como se cuida.
- O que vem incluído.
- Um defeito ou limite honesto (por exemplo, "não é impermeável").
- As perguntas que os clientes costumam fazer.
- Um detalhe só teu: de onde vem, como o testas, porque o escolheste.
Podes dizer à IA: "Usa apenas estes dados. Se faltar alguma informação, escreve 'falta' e não inventes."
Google e conteúdo escrito com IA
Muita gente pergunta se o Google penaliza texto escrito com IA. Na documentação oficial da Google Search Central (página sobre conteúdo gerado por IA, atualizada a 01/10/2026), a Google diz que a IA pode ser útil para pesquisar um tema e dar estrutura a conteúdo original. Avisa que estes modelos não vão buscar factos e podem errar, por isso o conteúdo deve ser verificado antes de publicado. E refere que usar IA para criar muitas páginas sem acrescentar valor para os utilizadores pode violar a política contra spam de "abuso de conteúdo em escala".
Na nossa leitura, o problema descrito é o conteúdo em grande quantidade e sem valor para quem lê, e não o simples uso de IA. Ninguém te pode prometer posições no Google, com IA ou sem ela.
Fontes: https://developers.google.com/search/docs/fundamentals/using-gen-ai-content e https://developers.google.com/search/docs/essentials/spam-policies (consultadas a 30/10/2026).
Cuidados com a lei
Estado da lei a 28/10/2026. Informação geral, não aconselhamento jurídico.
- Ecológico, sustentável, natural. São palavras que aparecem facilmente em textos gerados. A Diretiva (UE) 2024/825 aperta as regras sobre alegações ambientais genéricas, e a sua data de aplicação na UE foi 27/09/2026. Mas uma diretiva precisa de lei nacional, e a 28/10/2026 Portugal ainda não a tinha transposto. Mesmo assim, a lei portuguesa já proíbe enganar o cliente. Por isso, quando estas palavras sugerem um benefício para o ambiente, o mais prudente é tirá-las se não conseguires provar o que dizem e preferir factos concretos e verdadeiros, como "embalagem com 80% de cartão reciclado", só se for verdade.
- Imagens. Uma imagem de produto criada por IA que mostre o produto diferente do real (cor, tamanho, acabamento) pode ser prática enganosa, com ou sem rótulo. Além disso, desde 02/08/2026, o Regulamento da IA (art. 50.º, n.º 4) obriga a revelar as chamadas falsificações profundas: imagens geradas ou manipuladas por IA que se parecem com pessoas, objetos, locais ou acontecimentos reais e podem parecer autênticas. Se uma imagem de produto ou um modelo virtual cabe nesta regra é uma interpretação, porque não lemos o texto integral das orientações da Comissão. Por isso, se a imagem pode passar por fotografia real, o mais prudente é pôr um rótulo visível junto a ela, como "Imagem gerada por IA". Um retoque simples, como tirar o fundo ou corrigir a luz, em regra não precisa de rótulo.
- Dizer que o texto foi feito por IA. Na nossa interpretação, uma descrição de produto escrita com IA não é, em regra, um texto de interesse público e o Regulamento da IA não exige rótulo. Mas o texto não pode enganar o cliente.
A checklist legal da loja online tem pontos sobre fichas, alegações e imagens. Outro uso de IA com regras próprias é o chatbot: o chatbot da tua loja tem de dizer que é IA. E antes de uma campanha, confirma preços e descrições: Black Friday na tua loja online.
Perguntas rápidas
Tenho de avisar que a ficha foi escrita com IA?
Na nossa interpretação, o Regulamento da IA não o exige, em regra. Mas o texto tem de ser verdadeiro.
Como evito 100 fichas todas iguais?
Usa a mesma estrutura, mas dados diferentes em cada produto, e acrescenta um detalhe só teu.